PISTAS PARA O TESOURO

sábado, 18 de dezembro de 2010

A aflição do ciúme

Uma certa vez, um acaso qualquer levou-o a perguntar se ela já tinha visto o filme “Dr. Strangelove”, de Stanley Kubrick. A resposta deixou-o um bocadinho ciumento e até amuado.
- Vi, vi! Na Cinemateca de Lisboa, com o meu primeiro namorado. Porra, agora que penso nisso… Passaram tantos anos! Estou a ficar velha, não é?
- …
- Sabes que depois, nessa noite, depois de beber algumas cervejas no Bairro Alto, sonhei que voava montada em cima da pila dele – que nalgumas partes do sonho era um enorme míssil atómico e noutras era um foguete fininho mas comprido, como aqueles que, na aldeia da minha infância, atiravam na festa em honra de Nossa Senhora dos Aflitos.
- …

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Não há cu que aguente a picha dos bancos!

- O que pensas da crise económica, Tomé?
- … Tenho um colega gay… maricas, bicha até à medula… e ele no outro dia disse uma coisa curiosa quando lhe fizeram uma pergunta semelhante…
- Disse que a culpa da crise é dos heterossexuais?
- Não! Foi uma observação realmente profunda, mas metafórica… Ele disse isto: “Gosto de ser enrabado, mas não há cu que aguente a picha dos bancos!”
- Chamas metáfora a isso, Tomé? Isso é literal, literal, literal… Metáforas são as teorias económicas!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Oh su sexo con luna!

Todas las rosas blancas de la luna caían,
por la ventana abierta, en el cuerpo desnudo ...
Mirando aquellas carnes blandas que florecían,
hundido entre mis sueños, yo estaba absorto y mudo.

Oh su sexo con luna! ¡Esencia indefinible
de su sexo con luna! Hervían los blancores
de la carne, y el rostro, perdido en lo invisible
de la penumbra, lánguido, cerraba sus colores.

Era el enervamiento del dolor ... Y cual una
rosa de treinta años, opulenta y desierta,
el cuerpo blanco se elevaba hacia la luna
frío, espectral, azul, como una pompa muerta ...

Juan Ramón Jiménez

Via

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Um cu que talvez prove a existência de Deus

Do outro lado da rua apinhava-se uma multidão de mulheres esperando ansiosamente o início dos saldos, mas Tomé e o colega só conseguiam olhar para um único lugar, como se os seus olhos fossem atraídos para lá pela gravidade invencível de um buraco negro.
- Aquele cu é uma obra de arte maravilhosa! Nem o acaso nem a natureza poderiam ter originado aquela simetria ondulante. Só Deus poderia ter imaginado uma tal perfei...
- Que treta! Então e o cancro e o terrorismo, para não falar no cu da minha mulher… Também foi Deus que os criou? É que não são lá muito perfeitos!
- Foi Deus, sim, para podermos comparar e dar valor às coisas boas. O cu daquela gaja talvez prove a existência de Deus.
- Bem… Se provasse não precisavas de dizer “talvez”. Além disso…
- Caralho! Como podes ser ateu?
- Basta olhar à volta. O mundo é uma desgraça, uma merda muito mal feita! Mesmo que fosse necessário existirem algumas coisas más para podermos reconhecer e valorizar as boas, era preciso as más serem tão numerosas? Não bastava o cancro? Porque é que tinha de existir também o reumático e a espinha bífida? Se houve um Criador…olha, era o cabrão de um incompetente, muito pouco omnipotente e nada perfeito!
- …
- Seja como for, mesmo que Ele tenha criado aquela gaja e o seu esplendoroso traseiro não a pode enrabar, devido ao aborrecido facto de ser incorpóreo. Por isso, é preciso que alguém se encarregue dessa missão… Como tu não podes, por causa do pecado original, dos sagrados sacramentos e de toda essa cangalhada religiosa, eu farei o sacrifício. Fica aqui, que eu vou atravessar a rua e meter conversa!

- Calma aí! Eu acredito em Deus, mas não sou beato e não me importo nada com o pecado original. Não podemos ir os dois meter conversa, senão ela foge. Por isso, que tal tirar à sorte qual dos dois vai?

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A perfeição do conjunto

Estava a chover muito e Marta chegou ao escritório encharcada, literalmente a pingar água. Quando tirou o casaco os olhos de Sofia foram invadidos pela imagem dos seus seios colados à blusa cor-de-rosa. Os biquinhos espetados insinuavam-se tanto para a frente que, por instantes, Sofia pareceu sentir o seu toque no rosto, apesar de estar a dois metros de Marta.
- Não aguento mais. Vou atirar-me a ela.
Depois de murmurar essas palavras, Sofia ofereceu-se para ajudar Marta. Foi buscar algumas peças de roupa que guardava no cacifo e foi levá-las à sala onde Marta se fora trocar. Tinha tirado a roupa molhada e estava envolta numa toalha a tiritar de frio. Agradeceu as roupas de reserva de Sofia, que eram mais adequadas à estação fria que as suas e aceitou que ela lhe esfregasse o cabelo com uma toalha. Sofia estava destemida e, sem mais preâmbulos, encostou-se ostensivamente ao traseiro da outra enquanto lhe secava o cabelo. Animada pelo facto dela não se ter afastado ou sequer encolhido, acariciou-lhes os seios mal tapados pela toalha de turco barato do escritório. Marta suspirou, senão ainda de prazer pelo menos de satisfação, e Sofia disse-lhe com a voz rouca de cio:
- Há meses que não penso noutra coisa que não seja fazer amor contigo…
- Pode ser Sofia, também me apetece. Mas, aviso-te já que sou mais do género de foder do que de fazer amor…
Como resposta, Sofia, que a continuava a agarrar por trás, esfregou-se com força no seu traseiro e acariciou-lhe os mamilos com veemência. Mas ao fim de poucos segundos teve de a largar, pois Marta foi sacudida por uma série de espirros. A toalha caiu e o seu corpo nu revelou-se a Sofia, demasiado concentrada na penugem triangular entre as pernas para reparar na beleza sensual das outras partes ou na perfeição do conjunto.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sê quem és



"It takes courage to grow up and become who you really are." E.E. Cummings

sábado, 13 de novembro de 2010

Fusão

- Enfia tudo, enfia, até ao fundo… Ahh! Racha-me a cona! Fode-me toda! Viola-me, queridooo… Ahh!
- Eu fodo-te toda, menos a alma… Ai! Aiii! Sim, sim, morde-me a boca outra vez!
Pouco depois, enquanto fumavam o cigarro pós-coital, debateram a ideia de Platão segundo a qual os amantes procuram fundir-se e tornar-se um através do amor.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Meter a mão na massa


Texto humorístico de David Marçal, publicado no Inimigo Público. Também no RN.

É humor, mas quem conhece sabe que a realidade portuguesa é ainda mais desconcertante. O que dá mais vontade de chorar do que de rir.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Pergunta retórica

Tinham concordado em fazer “coisas muito porcas” naquela noite, mas durante vários minutos limitaram-se a trocar beijos carinhosos e carícias limpas, sem sombra de perversidade. Estavam sentados na cama e tão abraçados que quase não se podiam mexer.
Depois, ele deitou-a e mordeu e lambeu demoradamente o seu sexo. O furor masculino da sua boca  era tanto que parecia querer mergulhar de cabeça na ofegante fenda. A seguir penetrou-a. Ela encaixou o golpe com um gemido à beira do grito e beijou-o com volúpia. Depois de beijar a boca beijou o nariz e o queixo, ainda molhados pelos sucos vaginais. Os beijos transformaram-se em ávidas lambidelas que substituíam, naquele rosto tão amado e familiar, as secreções da sua vagina pela abundante saliva que o desejo lhe deixava na boca.
Habitualmente, ele gostava de lhe chamar nomes e de misturar ternura e agressividade em palavras como “putazinha” e “safada”, mas quando ela o encharcava daquela maneira a sua excitação crescia tanto que os palavrões atingiam os cumes mais elevados da violência verbal. Esta só não deixava de ser erótica devido ao desejo que a empurrava e ao amor e à ternura que eles nunca deixavam sair da sua cama, por muito sujo que fosse o sexo praticado. Por isso, as palavras violentas e insultuosas não a afastavam dele e, porque simbolizavam a posse dele sobre ela, excitavam-na também a ela. De resto, havia muitas ocasiões em que ela também recorria ao vernáculo mais grosseiro da língua portuguesa.
Quando a língua molhada lhe atingiu os olhos para logo descer novamente para as regiões próximas da boca, ele urrou, possuído por uma exaltação selvagem que teria assustado uma mulher que não o conhecesse bem. Chamou-lhe “puta ordinária” e “porca de merda” e, pouco antes dos gemidos conjuntos do orgasmo, fez uma pergunta a que ela não respondeu, talvez por a considerar retórica.
- Estás a lambuzar-me todo porque gostas do sabor da tua cona, não é?

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A subtil diferença entre o com e o em

era belo
o rapaz onde pernoitei

al berto (citado de memória)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O órgão preferido

"O cérebro é o meu segundo órgão preferido."
Woody Allen

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Assuntos domésticos

Assim que a viu, Tomé começou a comer com os olhos uma cinquentona bem conservada e de curvas volumosas que falava ao telemóvel encostada a uma parede do restaurante. Aproximou-se, discretamente mas com uma desculpa para falar com ela na ponta da língua. Ouviu-a dar instruções à criada acerca do jantar e da roupa que era preciso arrumar. Tomé julgou que ela ia desligar, mas a mulher ainda acrescentou um pedido, proferido com a naturalidade com que falara dos assuntos domésticos:
- Só mais uma coisa, Maria de Fátima. Tenho trabalho muito nos últimos dias e não consegui dar muita atenção ao seu patrão. Veja se o coitadinho precisa de alguma coisa, se lhe apetece… sei lá, um broche ou mesmo a coisa completa. Desconfio que ele anda carente e uma hora a foder só lhe faria bem! Se ele quiser não se preocupe com a roupa, está bem?
A mulher desligou e olhou para Tomé, que entretanto se aproximara como se lhe fosse falar. Este, contudo, não conseguiu pronunciar palavra e ficou a vê-la afastar-se bamboleando o roliço traseiro. E, ainda antes de reparar na erecção que prosperava no seu baixo-ventre, observou com filosófica resignação:
- Um broche ou mesmo uma foda completa… Não deixam de ser assuntos domésticos!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Garanhão apaixonado

Depois de terem feito amor ficaram muito tempo deitados em silêncio, como se ainda estivessem a absorver o caudaloso rio de prazer em que tinham mergulhado. A certa altura ela murmurou "meu garanhão", enquanto lhe acariciava o peito peludo. Ele riu-se e, diante do deliciado sorriso dela, disse:
- O mérito é principalmente teu. Confundo tanto o sexo contigo que se  fosse para a cama com outra mulher teria provavelmente que usar Viagra...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Leva-me tudo que eu tenha, amor

Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo –
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
– desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.
Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha
–Se tanto for necessário
Para ser compreendido.

António Botto (1897-19599

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sonho literal

- Gostei de te ver comer o gelado ontem! Estás definitivamente melhor. Quase, quase curada.
- Até sonhei com ele ontem à noite.
- Isso é sinal que querias comer outro. Queres que vá comprar um?
- Não é preciso. Eu sonhei que estava a comer o gelado, mas a meio do sonho o gelado transformou-se no teu caralho e até ao final do sonho foi o teu caralho que eu lambi e chupei.
- Eh, eh! Isso é melhor que a opinião de mil médicos: estás curada! Esse sonho é tão óbvio que não chega a ter segundo sentido. Para o interpretar não é preciso ser psicanalista.
- Yeh! É mais literal que uma equação matemática: preciso de foder!

domingo, 19 de setembro de 2010

Desejo impotente

Tomé ia de vez em quando visitar a sua velha tia Irene ao Lar de Idosos onde esta vivia. Um dia descobriu que este tinha um novo hóspede: um velhote de cadeira de rodas cuja cara era vagamente familiar. Tomé reconheceu-o ao fim de alguns minutos: era um gay conhecido em toda a cidade, que tinha desaparecido de circulação há meses atrás devido a uma misteriosa doença neurológica de que ninguém sabia dizer o nome. Durante décadas fora um distinto cavalheiro cujas preferências sexuais despertavam silenciosos olhares reprovadores, mas que, graças à sua discrição e finura de maneiras, nunca causara nenhum escândalo. Mas agora algo se desarranjara no seu cérebro e falava pelos cotovelos, tendo o sexo como tema único. Fazia a sua cadeira deslizar até ao pé dos outros idosos e das suas visitas e, sem nenhum aviso, começava a descrever os seus encontros sexuais com marinheiros e operários. Contaram a Tomé que a frase “havia um preto muito alto com um caralho tão grande que… não havia cu que aguentasse” já tinha provocado desmaios em duas senhoras especialmente afectadas (e, dizia-se, carentes) que lá tinham ido em visita social. O velhote nunca se calava, como se tivesse uma fábrica de palavras e recordações sexuais dentro da cabeça.
- Quem nunca experimentou levar no cu não devia criticar! É tão, tão bom! Eu gostava tanto que às vezes me vinha enquanto era enrabado, apesar de ninguém me ter tocado na picha. Era só o prazer de sentir a picha de outro gajo a enfiar-se-me no cu até às tripas, está a ver? Mas ficar no meio, foder e ao mesmo tempo ser fodido, era ainda melh… Mas, espere aí, não se vá embora. Deixe-me contar-lhe de uma vez em que éramos dez, todos enleados uns nos outros.
Tomé pensou, não sem alguma tristeza, que o velhote já não conseguia desejar mas ainda se lembrava suficientemente do desejo para querer satisfazê-lo.
- Não sei se é uma explicação neurologicamente rigorosa, mas acho que fala porque já não consegue foder. É por isso que é incontinente verbal.
Depois de dirigir essas palavras a si mesmo, Tomé perguntou-se também, mas sem conseguir encontrar nenhuma resposta, se aquela desinibição desregrada provocada pela doença significaria que o velhote agora era mais livre do que quando obedecia às convenções sociais e guardava segredo das suas aventuras sexuais.

sábado, 4 de setembro de 2010

Os olhos do amor

- Estou horrível, uma bruxa autêntica!
- Mentira. Cada dia que passa tens melhor aspecto. E estás mais bonita que estas enfermeiras boazonas todas juntas!
- Melhor sim, mas horrível à mesm…
Um beijo superficial mas intenso nos seus lábios pálidos e descarnados impediram-na de continuar. A enfermeira que vinha a entrar no quarto sorriu e voltou para trás.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A casa da avó é onde o coração quiser

Depois de meia hora a lamber e a perfurar com os dedos os estreitos orifícios da rapariga, e após a aguda explosão de gemidos que se seguiu a muitos gritinhos de prazer, Sofia sentou-se na cama e sorriu, inebriada pelo prazer da outra. Diminuiu o sorriso para metade e ficou calada e imóvel, submersa em pensamentos que a rapariga não conseguia perscrutar, apesar de espreitar com ávida e silenciosa atenção o seu rosto bonito e todos os centímetros da sua nudez. Passaram vários minutos até o silêncio ser quebrado, quando o sorriso de Sofia se rasgou de novo.
- Os teus buraquinhos fazem-me lembrar a casa da minha avó.
- Hã?? A minha cona faz-te lembrar a cona da tua avó?
- Não! Sei lá como era a cona da minha avó! A casa, eu disse a casa. A tua cona e o teu cu fazem-me lembrar a casa da minha avó, que também era muito acolhedora e saborosa – sempre cheia de doces, compotas, xaropes de açúcar e mel, um mel divino! Tal qual os teus buraquinhos!
-
- Não dizes nada? Não importa! As recordações só alimentam a pessoa que recorda. Alimentam e prendem, caso sejam conduzidas por um coração desvairado. Mas, realmente, nada disto tem importância. Anda, vem. Deixa de me comer com os olhos e come-me a sério. Quero ser engolida pela tua boca!
Quando Sofia disse esta última frase, o rosto de Marta pousou sobre o rosto da rapariga e substituiu-o durante alguns segundos, mas desapareceu assim que a língua dela lhe penetrou a boca e as suas mãos lhe tomaram posse dos seios.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O mundo debaixo da mesa

Tomé ficou estupefacto quando, ao entrar na sala de jantar onde a família estava reunida diante de uma deliciosa refeição, viu a perna da irmã estendida por debaixo da mesa e o seu pé descalço a acariciar uma perna que não era do seu amado marido. A dita cuja pertencia a uma prima quarentona e solteira, um mulherão cujo decote e traseiro empinado costumavam deixar os homens a salivar. O mais espantoso era o discreto olhar cúmplice com que o cunhado de Tomé acompanhava a situação. Nunca observara qualquer sinal que indiciasse uma situação daquelas. Era como se, afinal, não conhecesse aquelas pessoas que, no entanto, lhe eram familiares há muitos anos. Debaixo da aparência com que a vida se costumava apresentar havia um mundo inteiro diferente. “Vivendo e aprendendo”, pensou Tomé enquanto ocupava o seu lugar à mesa e se servia de um pouco de vinho.